Apneia do sono: por que algumas pessoas não percebem que estão dormindo mal?
A percepção que temos do nosso próprio sono nem sempre corresponde ao que realmente acontece durante a noite. Em pessoas com apneia obstrutiva do sono, essa diferença pode ser ainda mais significativa.
Você pode acordar pela manhã acreditando que dormiu durante praticamente toda a noite. Ou, ao contrário, ter a sensação de que quase não conseguiu dormir. Mas será que essa percepção corresponde ao que realmente aconteceu enquanto você estava dormindo?
Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista científica Frontiers in Neurology investigou justamente essa questão em pacientes com apneia obstrutiva do sono. Os pesquisadores avaliaram 700 adultos com diagnóstico confirmado por polissonografia e compararam aquilo que os pacientes acreditavam ter ocorrido durante o sono com os dados objetivos registrados pelo exame.
O que é a percepção do estado de sono?
A percepção do sono é a maneira como cada pessoa avalia subjetivamente quanto dormiu e qual foi a qualidade daquele sono.
Em muitos casos, essa percepção é relativamente próxima da realidade. Entretanto, algumas pessoas podem apresentar uma diferença importante entre aquilo que acreditam ter dormido e o que os exames realmente mostram.
Essa condição é conhecida como percepção equivocada do estado de sono, ou sleep state misperception.
Ela pode ocorrer em duas direções.
Há pessoas que acreditam ter dormido menos tempo do que efetivamente dormiram. Outras podem acreditar que dormiram mais tempo ou melhor do que os registros objetivos demonstram.
Essa diferença é particularmente importante porque pode interferir na identificação e no acompanhamento dos distúrbios do sono.
E o que isso tem a ver com a apneia?
A apneia obstrutiva do sono provoca episódios repetidos de redução ou interrupção da passagem de ar pelas vias respiratórias durante o sono.
Esses eventos podem levar a quedas na oxigenação e a microdespertares que fragmentam a estrutura normal do sono. Muitas vezes, porém, a pessoa não se lembra desses despertares quando acorda pela manhã.
É justamente aí que surge um aspecto importante: uma pessoa pode acreditar que dormiu normalmente mesmo tendo apresentado diversas alterações respiratórias ao longo da noite.
Da mesma maneira, outro paciente pode ter a sensação de ter permanecido acordado por longos períodos, mesmo quando a avaliação objetiva mostra que houve mais tempo de sono do que ele percebeu.
O que o estudo encontrou?
Os pesquisadores avaliaram 700 pacientes com apneia obstrutiva do sono confirmada por polissonografia.
Entre eles, 521 apresentaram uma percepção considerada compatível com o tempo de sono registrado pelo exame.
Outros 118 pacientes, correspondentes a 16,9% da amostra, subestimaram o quanto haviam dormido. Já 61 pacientes, ou 8,7%, superestimaram o próprio tempo de sono.
Somados, aproximadamente 25,6% dos pacientes estudados apresentaram algum grau de percepção equivocada do sono.
Um dos achados mais interessantes foi a associação entre um índice de apneia-hipopneia mais elevado e os dois tipos de percepção equivocada do sono.
O índice de apneia-hipopneia, conhecido pela sigla IAH, representa a quantidade média de episódios de apneia e hipopneia registrados por hora de sono e é um dos parâmetros utilizados na avaliação da apneia obstrutiva do sono.
“Mas eu acho que durmo bem”
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para o paciente.
A percepção de ter dormido bem não necessariamente exclui a existência de um distúrbio do sono.
Durante uma noite com apneia podem ocorrer alterações respiratórias, oscilações na oxigenação e microdespertares que não ficam registrados na memória consciente.
Por isso, algumas pessoas podem dizer que “dormem a noite inteira”, embora apresentem ronco intenso, pausas respiratórias observadas pelo parceiro, sonolência durante o dia, dificuldade de concentração ou outros sintomas.
Por outro lado, existem pacientes que têm a sensação de dormir muito pouco, embora os dados objetivos indiquem um tempo de sono maior.
Identificar essa diferença ajuda o médico a compreender melhor o quadro apresentado pelo paciente.
A importância da polissonografia
A polissonografia permite observar aquilo que a nossa percepção sozinha não consegue medir.
Durante o exame podem ser registrados diversos parâmetros, como atividade cerebral, fluxo respiratório, movimentos do tórax e abdome, frequência cardíaca, oxigenação, ronco, posição corporal e diferentes estágios do sono.
No estudo publicado pela Frontiers in Neurology, foi justamente a comparação entre esses registros objetivos e a percepção relatada pelos pacientes na manhã seguinte que permitiu identificar as diferenças entre o sono percebido e o sono efetivamente registrado.
Isso demonstra por que a avaliação de um distúrbio do sono não deve depender exclusivamente da impressão de que a pessoa “dorme bem” ou “dorme mal”.
Apneia e insônia também podem ocorrer juntas
Outro aspecto discutido pelos pesquisadores é a associação entre apneia obstrutiva do sono e insônia.
A ocorrência simultânea dessas duas condições é conhecida internacionalmente pela sigla COMISA, referente à combinação de comorbid insomnia and sleep apnea.
Segundo os autores, compreender alterações na percepção do sono pode ajudar a identificar pacientes que necessitam de uma avaliação mais individualizada, especialmente quando sintomas de apneia e insônia se sobrepõem.
É importante observar, entretanto, que o estudo foi transversal. Portanto, seus resultados mostram associações e não permitem afirmar que determinada alteração seja necessariamente causa de outra.
Quando procurar avaliação?
Ronco frequente, pausas respiratórias durante o sono, despertares com sensação de sufocamento, sonolência excessiva durante o dia, sono não reparador, dificuldade de concentração e alterações persistentes na qualidade do sono são sinais que merecem investigação.
Também é importante procurar avaliação quando existe uma diferença importante entre a percepção da pessoa sobre seu sono e aquilo que familiares ou parceiros observam durante a noite.
Uma avaliação clínica adequada permite investigar as possíveis causas e determinar se há indicação para exames específicos, como a polissonografia.
O sono pode revelar mais do que percebemos
O estudo reforça uma característica importante dos distúrbios do sono: nem tudo o que acontece durante a noite é percebido conscientemente.
Por isso, observar os sintomas, ouvir quem acompanha o sono do paciente e, quando indicado, utilizar métodos objetivos de avaliação pode oferecer uma visão muito mais completa sobre a qualidade do sono e possíveis alterações respiratórias.
Se você apresenta ronco, pausas na respiração, despertares com sensação de falta de ar ou suspeita de apneia do sono, agende sua avaliação com o neurologista Dr. Robson Dal Bem Pires.
📍 Na Clínica de Neurologia e Distúrbios do Sono de Maringá, a avaliação neurológica permite investigar o histórico do paciente, os fatores associados ao AVC e orientar o acompanhamento de maneira individualizada.
Agende sua avaliação com o neurologista Dr. Robson Dal Bem Pires.
📚 Referência
- Frontiers in Neurology. Sustained LDL-C target attainment and recurrent ischemic cerebrovascular events after ischemic stroke: effect modification by large-artery disease. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/neurology/articles/10.3389/fneur.2026.1902614/full . Acesso em: agosto 2026.


