TDAH e impulsividade: novas descobertas sobre o papel da dopamina
O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, o TDAH, é uma condição complexa que pode envolver dificuldades de atenção, hiperatividade e impulsividade. Entre os sistemas cerebrais estudados nesse contexto, a dopamina tem papel importante por participar de circuitos relacionados ao controle do comportamento, motivação, recompensa, movimento e capacidade de inibir respostas impulsivas.
Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista científica Neuropsychopharmacology investigou um mecanismo específico relacionado ao funcionamento da dopamina no cérebro. Os pesquisadores analisaram o papel da proteína NSF — N-ethylmaleimide-sensitive factor — em células que expressam receptores dopaminérgicos D2, especialmente em uma região chamada estriado. O trabalho foi realizado em camundongos geneticamente modificados e buscou compreender como alterações nesse sistema poderiam afetar o desenvolvimento dos circuitos dopaminérgicos e o comportamento.
O que os pesquisadores observaram?
Para estudar esse mecanismo, os pesquisadores produziram camundongos nos quais a proteína NSF foi removida especificamente das células que expressavam receptores D2. A partir dessa alteração, foram observadas mudanças importantes no estriado, incluindo redução da expressão dos receptores D2, menor densidade das células associadas a esses receptores, aumento da morte celular durante o desenvolvimento pós-natal, diminuição do volume estriatal e redução acentuada dos níveis de dopamina.
Essas alterações não ficaram restritas à estrutura cerebral. Os animais também apresentaram hiperatividade e comportamentos semelhantes à impulsividade, características que os pesquisadores descreveram como fenótipos semelhantes aos observados no TDAH. Isso reforça a hipótese de que mudanças em circuitos dopaminérgicos do estriado podem participar de mecanismos relacionados ao controle da atividade motora e dos impulsos.
Qual é o papel da dopamina nesse processo?
A dopamina é um neurotransmissor que atua em diferentes regiões do cérebro por meio de vários tipos de receptores. Entre eles estão os receptores D1 e D2, presentes em circuitos envolvidos no movimento, motivação, recompensa e controle comportamental.
Os receptores D2 são encontrados em grande quantidade em neurônios do estriado e participam de vias dos gânglios da base ligadas à regulação motora e ao controle inibitório. No estudo, a perda da proteína NSF nessas células foi acompanhada por redução dos próprios receptores D2 e por alterações em proteínas relacionadas à síntese, ao transporte e ao funcionamento da dopamina.
Esses resultados sugerem que a proteína NSF pode ter importância para a manutenção desses neurônios e para o equilíbrio do sistema dopaminérgico durante o desenvolvimento.
E o que isso tem a ver com impulsividade?
Impulsividade envolve dificuldade em interromper, adiar ou controlar determinadas respostas. Esse tipo de comportamento depende da interação de diferentes circuitos cerebrais e neurotransmissores, e a dopamina é um dos sistemas envolvidos nesse processo.
Nos camundongos utilizados no estudo, a redução das células associadas aos receptores D2 aconteceu paralelamente ao aumento da atividade locomotora e à diminuição do controle inibitório. Porém, os próprios pesquisadores ressaltam que essa associação não demonstra, sozinha, uma relação causal completa entre as alterações dopaminérgicas e todos os comportamentos observados.
Esse cuidado é importante porque o TDAH não pode ser explicado por um único neurotransmissor, receptor ou região cerebral. Trata-se de uma condição multifatorial, na qual aspectos genéticos, neurobiológicos, ambientais e do desenvolvimento podem interagir.
O estudo também avaliou medicamentos?
Sim. Os pesquisadores testaram o metilfenidato, medicamento utilizado no tratamento do TDAH, nesse modelo experimental.
O metilfenidato isoladamente não reduziu significativamente a hiperatividade quando os animais foram analisados em conjunto. Em seguida, os pesquisadores associaram o medicamento à quinpirola, uma substância agonista dos receptores D2, e observaram redução da hiperatividade e do comportamento impulsivo no modelo animal.
Esse resultado chamou atenção porque sugere que alterações importantes na função dos receptores D2 podem influenciar a resposta dopaminérgica. Entretanto, isso não significa que essa combinação represente um novo tratamento disponível para pacientes com TDAH.
Isso muda o tratamento do TDAH?
Não neste momento.
O estudo foi realizado em camundongos geneticamente modificados, utilizando uma alteração muito específica que não representa necessariamente o que acontece em pessoas com TDAH. Os próprios autores apresentam os resultados como uma possibilidade para aprofundar pesquisas futuras sobre disfunção dopaminérgica e, eventualmente, sobre casos de difícil resposta terapêutica.
Entre um resultado experimental em animais e uma nova abordagem terapêutica para seres humanos existem diversas etapas de pesquisa, incluindo estudos de segurança, eficácia e validação clínica.
Por isso, os achados devem ser entendidos principalmente como uma contribuição para a compreensão dos mecanismos neurobiológicos relacionados ao TDAH.
O que essa pesquisa acrescenta ao conhecimento sobre o TDAH?
Um dos pontos mais interessantes do estudo é mostrar que alterações em células associadas aos receptores D2 podem afetar simultaneamente o desenvolvimento do estriado, a quantidade de dopamina disponível e determinados padrões de comportamento.
Os resultados ajudam a compreender melhor como diferentes componentes do sistema dopaminérgico podem interagir. Ao mesmo tempo, permanecem questões importantes em aberto, inclusive porque os pesquisadores não conseguiram estabelecer definitivamente todas as relações causais entre perda celular, redução dos receptores D2, diminuição da dopamina e alterações comportamentais.
É justamente esse tipo de pesquisa que pode abrir novos caminhos para compreender por que o TDAH apresenta manifestações diferentes entre as pessoas e por que a resposta aos tratamentos também pode variar.
Pesquisa experimental não substitui avaliação clínica
Estudos neurobiológicos ajudam a compreender os mecanismos envolvidos no TDAH, mas o diagnóstico continua sendo clínico.
Não existe um exame isolado de dopamina, uma imagem cerebral ou um teste de receptores D2 capaz de confirmar sozinho a presença de TDAH. A avaliação envolve história clínica, sintomas, duração, intensidade, impacto na vida cotidiana e investigação de outras condições que possam produzir manifestações semelhantes.
Dificuldades persistentes de atenção, hiperatividade ou impulsividade que interferem na vida escolar, profissional, familiar ou social devem ser avaliadas individualmente.
Clínica de Neurologia e Distúrbios do Sono de Maringá
O TDAH pode se manifestar de formas diferentes ao longo da vida, e sintomas como desatenção, inquietação e impulsividade precisam ser interpretados dentro do contexto de cada pessoa.
Uma avaliação neurológica pode ajudar a compreender esses sintomas, investigar condições associadas e definir a abordagem mais adequada para cada caso.
Agende uma avaliação com o neurologista Dr. Robson Dal Bem Pires.
📚 Referência
- Neuropsychopharmacology. Deletion of N-ethylmaleimide-sensitive factor in dopamine D2 receptor-expressing cells impairs striatal development and dopaminergic function and induces ADHD-like behaviors in mice. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41386-026-02526-8 . Acesso em: setembro 2026.
-
Neuroscience News.
Striatal D2 Receptor Neuron Disruption Drives ADHD and Impulsivity.
Disponível em:
Disruption of Striatal D2 Receptor Neurons Drives ADHD and Impulsivity
. Acesso em: setembro 2026.



