Depressão, ansiedade e lapsos de memória na maternidade: o que a ciência está descobrindo
Quando o chamado “cérebro de mãe” merece um olhar mais atento
Esquecimentos, dificuldade de concentração, perda do fio da conversa e aquela sensação de estar com a mente constantemente sobrecarregada são experiências frequentemente relatadas durante a gravidez e após o nascimento do bebê.
Popularmente, esse fenômeno costuma ser chamado de “cérebro de grávida”, “cérebro de mãe” ou pregnancy brain.
Um estudo publicado em 2026 mostra, porém, que parte dessas dificuldades cognitivas pode estar relacionada não apenas às mudanças naturais da maternidade, mas também a sintomas de ansiedade e depressão durante a gestação e o pós-parto.
🧠 O que os pesquisadores investigaram?
Pesquisadores acompanharam mulheres no final da gestação e novamente algumas semanas após o parto.
Foram avaliados:
sintomas de ansiedade;
sintomas depressivos;
nível de atividade física;
falhas cognitivas percebidas;
dificuldades de memória;
lapsos de atenção;
erros em tarefas cotidianas.
O estudo começou com 56 mulheres, avaliadas aproximadamente entre 28 e 30 semanas de gestação. Dessas, 46 participaram novamente da avaliação cerca de seis semanas após o parto.
💭 Ansiedade e depressão estiveram associadas a mais falhas cognitivas
Os pesquisadores observaram que mulheres com maior intensidade de sintomas de ansiedade e depressão relataram também maior frequência de dificuldades cognitivas.
Entre elas estavam:
esquecimentos;
perda de concentração;
dificuldade para manter o foco;
lapsos de memória;
falhas em ações rotineiras;
dificuldade para organizar pensamentos.
Os resultados indicaram que sintomas emocionais presentes durante a gestação também estavam relacionados a dificuldades cognitivas relatadas posteriormente no pós-parto.
🌙 Sono, emoção e cognição estão conectados
Ansiedade e depressão podem interferir diretamente na atenção, no sono e na capacidade de concentração.
No período gestacional e após o nascimento do bebê, outros fatores também podem contribuir para uma sensação de sobrecarga cognitiva:
alterações hormonais;
interrupções frequentes do sono;
novas responsabilidades;
preocupação constante;
mudanças na rotina;
fadiga física e emocional.
Quando vários desses fatores ocorrem simultaneamente, tarefas simples podem exigir mais esforço mental.
Por isso, dificuldades cognitivas nesse período não devem ser reduzidas automaticamente à ideia de que “toda mãe fica esquecida”.
🏃♀️ E a atividade física?
Um dos aspectos mais interessantes do estudo foi a relação entre exercício, humor e funcionamento cognitivo.
De maneira geral, atividade física isoladamente não esteve associada a uma redução significativa das falhas cognitivas em todas as participantes.
Entretanto, entre mulheres com níveis mais elevados de sintomas depressivos, atingir as recomendações de atividade física esteve associado a um menor aumento das falhas cognitivas.
O resultado foi diferente entre mulheres com ansiedade elevada no pós-parto.
Nesse grupo, cumprir as recomendações de exercício esteve associado a mais falhas cognitivas percebidas.
⚠️ Isso significa que mulheres ansiosas não devem se exercitar?
Não.
O estudo não demonstra que atividade física cause piora cognitiva.
Os próprios pesquisadores sugerem que algumas mães com ansiedade elevada podem estar tentando cumprir muitas obrigações ao mesmo tempo — incluindo a pressão para retomar rapidamente exercícios ou recuperar o corpo anterior à gestação.
Nesse contexto, algo que deveria funcionar como autocuidado pode se transformar em mais uma exigência.
Essa hipótese ainda precisa ser investigada em estudos maiores.
🤱 Autocuidado não é luxo no pós-parto
A maternidade pode trazer uma enorme quantidade de novas demandas.
Cuidar do bebê, reorganizar o sono, lidar com mudanças hormonais, recuperar-se fisicamente do parto e adaptar-se emocionalmente à nova rotina exige recursos físicos e mentais.
Por isso, apoio familiar, descanso, alimentação adequada, acompanhamento de saúde e espaço para recuperação emocional são elementos importantes.
Os pesquisadores destacam que o autocuidado precisa ser entendido como parte do cuidado materno — e não como algo secundário.
🩷 Outubro Rosa e o cuidado integral da mulher
O Outubro Rosa é tradicionalmente associado à conscientização sobre o câncer de mama.
Mas também oferece uma oportunidade importante para reforçar uma mensagem mais ampla:
cuidar da saúde da mulher significa olhar para ela de forma integral.
Sono, memória, cognição, ansiedade, depressão e saúde emocional também fazem parte desse cuidado.
A gestação e o pós-parto são períodos de profundas mudanças físicas, neurológicas e emocionais.
Sintomas persistentes ou intensos não devem simplesmente ser normalizados como “coisa de mãe”.
⚠️ Quando procurar ajuda?
É importante conversar com um profissional de saúde quando esquecimentos, ansiedade, tristeza ou dificuldades de concentração:
tornam-se persistentes;
interferem significativamente na rotina;
comprometem o autocuidado;
dificultam atividades profissionais ou familiares;
estão acompanhados de alterações importantes do sono;
provocam sofrimento emocional significativo.
Cada situação precisa ser analisada individualmente.
🧠 Clínica de Neurologia e Distúrbios do Sono de Maringá
A saúde da mulher também passa pelo cérebro, pelo sono e pelo equilíbrio emocional.
Compreender como essas dimensões se relacionam durante a gestação e o pós-parto pode ajudar a reconhecer quando uma mudança faz parte da adaptação à maternidade e quando merece investigação.
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📚 Referências
- SUHY, Victoria A.; PAULEY, Abigail M.; GRIFFITH, Owen; WHITNEY, Jamie; DOWNS, Danielle Symons. Pregnancy brain? Relationships between meeting prenatal physical activity guidelines, stress, anxiety, cognitive functioning in pregnancy and postpartum. Psychology & Health, 2026. DOI: 10.1080/08870446.2026.2733983 .
- NEUROSCIENCE NEWS. Depression and Anxiety Fuel Maternal Memory Lapses. Publicado em 19 out. 2026. Disponível em: Neuroscience News . Acesso em: 29 out. 2026.



