Depressão não é igual para todos: estudo identifica cinco perfis de atividade cerebral
Duas pessoas podem receber o mesmo diagnóstico de depressão e, ainda assim, apresentar sintomas, intensidade, evolução e resposta ao tratamento bastante diferentes. Essa heterogeneidade é uma das grandes dificuldades da prática clínica e também um dos principais desafios da pesquisa em saúde mental.
Um estudo publicado em 2026 na revista Nature Mental Health investigou justamente essa diversidade. Os pesquisadores analisaram a atividade cerebral de 263 pessoas com transtorno depressivo maior e 75 participantes saudáveis, utilizando magnetoencefalografia, técnica capaz de registrar com alta precisão temporal os campos magnéticos gerados pela atividade elétrica do cérebro. A partir desses dados, foram identificados cinco perfis neurofisiológicos distintos entre os pacientes com depressão.
O que significa dizer que foram encontrados cinco perfis?
Os pesquisadores não identificaram cinco novos diagnósticos de depressão. O que o estudo encontrou foram cinco padrões diferentes de conectividade funcional cerebral associados a combinações distintas de sintomas.
Esses padrões foram obtidos a partir da análise das oscilações cerebrais e da forma como diferentes regiões do cérebro se comunicavam entre si. Em alguns grupos havia maior conectividade entre determinadas redes; em outros, menor conectividade. Além disso, esses padrões cerebrais estavam associados a diferenças nos sintomas apresentados pelos pacientes.
Esse resultado reforça uma ideia importante: o transtorno depressivo maior não parece se manifestar da mesma forma em todas as pessoas, nem do ponto de vista clínico nem do ponto de vista neurobiológico.
Como o cérebro foi analisado?
O estudo utilizou magnetoencefalografia, também chamada de MEG. Diferentemente de exames que observam principalmente alterações no fluxo sanguíneo cerebral, a MEG registra diretamente a atividade elétrica neuronal por meio dos campos magnéticos produzidos pelo cérebro.
Os participantes permaneceram em repouso durante o exame e os pesquisadores analisaram diferentes frequências de oscilações cerebrais, observando como determinadas regiões se conectavam e sincronizavam sua atividade. Essas informações foram posteriormente relacionadas aos sintomas relatados pelos pacientes.
Além da magnetoencefalografia, foram utilizados exames de ressonância magnética estrutural e diferentes questionários clínicos para avaliar sintomas como depressão, ansiedade, ruminação, prejuízo funcional, sintomas relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático, uso de substâncias e bem-estar.
Quais diferenças apareceram entre os grupos?
Os cinco perfis apresentaram combinações distintas de conectividade cerebral e características clínicas.
Um dos grupos apresentou um padrão de hiperconectividade associado a maior carga de sintomas em diferentes áreas, incluindo depressão, ansiedade, ruminação, prejuízo funcional e sintomas relacionados ao estresse pós-traumático.
Outro perfil, também marcado por forte hiperconectividade, apresentou maior associação com uso de substâncias e menor carga de sintomas relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático.
Já alguns grupos caracterizados por hipoconectividade apresentaram padrões diferentes de sintomas, incluindo menor carga em determinadas dimensões e maior presença de características relacionadas ao estresse pós-traumático ou à evitação emocional.
Esses resultados mostram que pacientes com o mesmo diagnóstico podem apresentar organizações funcionais do cérebro bastante diferentes.
Isso pode explicar por que o tratamento funciona melhor para algumas pessoas?
Essa é uma das possibilidades que tornam esse tipo de pesquisa relevante.
Atualmente, pessoas com o mesmo diagnóstico podem responder de maneiras muito diferentes a antidepressivos, psicoterapia, neuromodulação ou outras abordagens. Uma das hipóteses é que parte dessa diferença possa estar relacionada justamente à existência de mecanismos cerebrais distintos dentro de um mesmo diagnóstico clínico.
Os autores do estudo destacam que a identificação de fenótipos biologicamente relevantes pode contribuir, no futuro, para estratégias mais personalizadas de tratamento. Entretanto, os cinco perfis identificados ainda precisam ser validados em outras populações antes que possam ser utilizados para orientar decisões clínicas.
Estamos caminhando para uma medicina mais personalizada?
A pesquisa aponta nessa direção, mas ainda estamos em uma etapa experimental.
O objetivo da medicina personalizada é compreender melhor as características individuais de cada paciente para selecionar estratégias terapêuticas mais adequadas. No caso da depressão, isso pode significar, no futuro, combinar informações clínicas com dados biológicos, neuroimagem e padrões de atividade cerebral.
Os próprios pesquisadores ressaltam que a magnetoencefalografia provavelmente não será um exame de primeira linha para todas as pessoas com depressão. Seu possível papel inicial pode estar em contextos especializados, nos quais a avaliação clínica convencional não seja suficiente ou em situações em que compreender melhor os circuitos cerebrais possa ajudar na escolha de estratégias de neuromodulação.
Isso significa que já existe um exame para descobrir “qual tipo de depressão” uma pessoa tem?
Não.
Os cinco perfis descritos no estudo ainda não representam uma classificação clínica disponível para diagnóstico individual. Eles são candidatos a fenótipos biológicos que precisam ser confirmados em novos estudos independentes e avaliados quanto à sua utilidade clínica real.
Portanto, a magnetoencefalografia não substitui a avaliação médica e não deve ser entendida como um exame capaz de determinar isoladamente o diagnóstico ou o tratamento da depressão.
O diagnóstico continua sendo realizado a partir da avaliação clínica, da história do paciente, dos sintomas apresentados, de sua duração, intensidade e impacto na vida cotidiana.
Por que esse estudo é importante?
O principal mérito do trabalho está em mostrar, de maneira objetiva, que a depressão pode apresentar diferentes padrões de funcionamento cerebral associados a diferentes conjuntos de sintomas.
Isso ajuda a compreender por que o transtorno depressivo maior é tão heterogêneo e por que uma abordagem que funciona bem para uma pessoa pode não produzir o mesmo resultado em outra.
Mais do que criar novos “tipos” de depressão, o estudo contribui para uma visão mais individualizada da doença e reforça a importância de compreender o paciente como um todo, e não apenas enquadrá-lo dentro de um diagnóstico.
Clínica de Neurologia e Distúrbios do Sono de Maringá
A depressão pode se manifestar de formas diferentes, com alterações no humor, sono, energia, concentração, memória, motivação e capacidade de realizar atividades do dia a dia.
Quando esses sintomas persistem ou começam a interferir na rotina, nos relacionamentos ou no desempenho profissional e social, é importante buscar avaliação adequada.
Uma abordagem individualizada ajuda a compreender melhor os sintomas, identificar condições associadas e definir a estratégia de acompanhamento mais apropriada para cada pessoa.
Agende uma avaliação com o neurologista Dr. Robson Dal Bem Pires.
📚 Referência
- Nature Mental Health. Magnetoencephalography oscillation-based functional connectivity identifies clinically relevant depression phenotypes. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s44220-026-00723-4 . Acesso em: setembro 2026.
-
Neuroscience News.
Five Brain Profiles of Depression Identified.
Disponível em:
Five Brain Profiles of Depression Identified
. Acesso em: setembro 2026.



