Epilepsia e sono: por que um pode interferir no outro?
Quem tem epilepsia pode perceber que determinadas crises acontecem durante o sono, logo ao acordar ou após uma noite mal dormida. Ao mesmo tempo, algumas pessoas com epilepsia também apresentam sono fragmentado, despertares frequentes, cansaço ao longo do dia ou outros distúrbios do sono. Essa relação não é apenas uma coincidência: sono e epilepsia influenciam um ao outro de maneira complexa.
Uma revisão publicada em setembro de 2026 na revista científica Frontiers in Neurology analisou justamente essa relação bidirecional. Segundo os autores, diferentes mecanismos neurobiológicos ajudam a explicar por que determinadas fases do sono podem favorecer atividade epiléptica e, no sentido oposto, por que crises e descargas epileptiformes também podem modificar a arquitetura do sono.
O sono pode influenciar a ocorrência de crises?
Durante o sono, o cérebro passa por diferentes estágios, principalmente o sono NREM e o sono REM. Esses estágios apresentam padrões distintos de atividade elétrica cerebral, e isso pode interferir na forma como descargas epilépticas surgem e se propagam.
A revisão destaca que o sono NREM tende a favorecer maior sincronização entre redes neuronais, especialmente em circuitos talamocorticais. Essa sincronização pode facilitar descargas epileptiformes e, em algumas situações, favorecer a propagação de crises. Já o sono REM apresenta maior dessincronização da atividade cerebral e, por isso, pode exercer um efeito relativamente protetor em relação à atividade epiléptica.
Isso ajuda a compreender por que algumas formas de epilepsia apresentam forte relação com o ciclo sono-vigília e por que determinadas crises acontecem preferencialmente durante o sono ou em momentos específicos da noite.
E a epilepsia também pode prejudicar o sono?
A relação funciona no sentido contrário também. A atividade epiléptica, mesmo quando não resulta em uma crise evidente, pode alterar a continuidade e a organização normal do sono.
Segundo a revisão, pessoas com epilepsia podem apresentar redução do tempo total de sono, menor eficiência do sono, redução do sono REM e aumento do tempo acordado após o início do sono. Além disso, descargas epilépticas podem interferir na estabilidade do sono NREM e comprometer processos importantes como memória, consolidação de aprendizado e recuperação cerebral.
Por isso, avaliar apenas a frequência das crises pode não ser suficiente. A qualidade do sono também pode fazer parte da avaliação clínica de pacientes com epilepsia.
Dormir pouco pode aumentar o risco de crises?
A privação de sono é reconhecida como um possível fator precipitante de crises em pessoas com epilepsia. Quando o sono é insuficiente ou fragmentado, ocorre aumento da excitabilidade cortical, o que pode reduzir o limiar para o aparecimento de crises em indivíduos suscetíveis.
A revisão também chama atenção para distúrbios do sono que podem agravar esse cenário, especialmente a apneia obstrutiva do sono. Episódios repetidos de obstrução das vias aéreas durante a noite podem provocar hipóxia intermitente, despertares frequentes e fragmentação do sono, fatores que também podem contribuir para reduzir o limiar para crises.
Esse ponto é particularmente importante porque um distúrbio do sono pode passar despercebido se o acompanhamento estiver concentrado apenas no controle da epilepsia.
Epilepsia e apneia do sono podem coexistir?
Sim. A revisão destaca que distúrbios do sono são mais frequentes em pessoas com epilepsia do que na população geral. Em adultos com epilepsia, esses distúrbios podem ocorrer até três vezes mais frequentemente, enquanto em crianças alguns estudos apontam frequência ainda maior em comparação com indivíduos sem epilepsia.
Quando há sintomas como ronco intenso, pausas respiratórias durante o sono, despertares frequentes, sonolência excessiva durante o dia ou sensação de sono não reparador, pode ser necessário investigar se existe algum distúrbio associado.
Toda crise noturna é epilepsia?
Não. Alguns episódios que acontecem durante a noite podem se parecer com crises epilépticas, mas ter origem diferente.
As chamadas parassonias, por exemplo, podem provocar movimentos, comportamentos incomuns, vocalizações ou despertares confusos durante o sono. Diferenciar uma parassonia de uma crise epiléptica noturna pode ser desafiador, principalmente quando os episódios não são observados diretamente durante uma consulta.
Por isso, a história clínica detalhada continua sendo fundamental. Em determinadas situações, exames como vídeo-polissonografia e eletroencefalograma podem ajudar a esclarecer a natureza dos episódios. A revisão destaca a vídeo-polissonografia como ferramenta importante nesse processo diagnóstico.
O tratamento da epilepsia também pode interferir no sono?
Outro ponto abordado pelos autores é que os medicamentos antiepilépticos podem apresentar efeitos diferentes sobre a arquitetura do sono. Algumas medicações podem favorecer determinados estágios do sono, enquanto outras podem provocar sonolência, insônia ou outras alterações.
A revisão também observa que o uso de múltiplos medicamentos antiepilépticos foi associado a pior qualidade do sono em alguns estudos. Isso não significa que o tratamento deva ser alterado sem orientação médica, mas reforça a importância de conversar com o neurologista quando surgem mudanças relevantes no padrão de sono.
Por que avaliar sono e epilepsia em conjunto?
A principal mensagem da revisão é que sono e epilepsia não devem ser analisados como problemas completamente separados. Alterações do sono podem contribuir para pior controle das crises, enquanto a própria epilepsia pode comprometer a qualidade do sono e, consequentemente, afetar memória, atenção, comportamento e qualidade de vida.
Por isso, identificar e tratar distúrbios do sono associados pode fazer parte de uma abordagem mais ampla do paciente com epilepsia. O objetivo não é apenas reduzir crises, mas também melhorar a qualidade do sono e o funcionamento durante o dia.
Clínica de Neurologia e Distúrbios do Sono de Maringá
A relação entre epilepsia e sono pode variar bastante de uma pessoa para outra. O horário das crises, a qualidade do sono, o uso de medicamentos, a presença de ronco ou apneia e outros fatores precisam ser analisados dentro do contexto clínico de cada paciente.
Se você apresenta epilepsia associada a alterações do sono, crises noturnas ou episódios incomuns durante a noite, uma avaliação neurológica pode ajudar a compreender melhor essa relação e indicar quando uma investigação específica do sono também pode ser necessária.
Agende uma avaliação com o neurologista Dr. Robson Dal Bem Pires.
📚 Referência
- Frontiers in Neurology. The bidirectional relationship between epilepsy and sleep: a narrative review. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/neurology/articles/10.3389/fneur.2026.1882139/full . Acesso em: setembro 2026.



