Esclerose múltipla além dos surtos: progressão silenciosa e alterações metabólicas no cérebro
A doença pode avançar mesmo quando não há novos surtos?
Durante muito tempo, a atividade da esclerose múltipla foi observada principalmente a partir de surtos clínicos e novas lesões identificadas na ressonância magnética.
Hoje, porém, sabemos que essa é apenas parte da história.
Novos estudos mostram que a doença pode apresentar progressão independente dos surtos, enquanto alterações metabólicas e energéticas também podem estar presentes nos neurônios.
Duas pesquisas publicadas em 2026 na Frontiers in Neurology ajudam a compreender melhor esses mecanismos.
🧠 O que significa progressão independente dos surtos?
Na esclerose múltipla, algumas pessoas podem apresentar piora gradual da incapacidade mesmo sem um novo surto claramente identificado.
Esse fenômeno é conhecido como PIRA — Progression Independent of Relapse Activity, ou progressão independente da atividade de surtos.
Isso significa que a pessoa pode apresentar piora funcional progressiva mesmo em períodos aparentemente mais estáveis da doença.
📊 Um estudo acompanhou pacientes por até cinco anos
Uma pesquisa prospectiva avaliou pacientes com esclerose múltipla recorrente utilizando informações clínicas, testes funcionais, ressonância magnética, biomarcadores e relatos dos próprios pacientes.
Dos 81 participantes com acompanhamento funcional completo por dois anos:
21 pacientes — 25,9% — apresentaram PIRA sustentada;
9 apresentaram piora associada a surtos;
um paciente apresentou os dois tipos de progressão em momentos distintos.
Os pesquisadores buscaram identificar sinais que pudessem ajudar a reconhecer pacientes com maior risco de progressão silenciosa.
🔬 Fadiga e um biomarcador chamaram atenção
Entre os fatores analisados, dois permaneceram associados à PIRA após os ajustes estatísticos:
maior pontuação na escala de impacto da fadiga;
níveis mais elevados de CHI3L1 no líquido cefalorraquidiano, um marcador relacionado à atividade glial e neuroinflamatória.
O modelo apresentou capacidade moderada a boa de discriminação, mas os próprios autores destacam que ainda é necessária validação externa antes de qualquer aplicação clínica ampla.
⚠️ Um exame isolado não prevê a evolução da doença
Os resultados não significam que fadiga ou um único biomarcador possam prever com certeza quem terá progressão.
A esclerose múltipla é uma doença heterogênea.
Diferentes mecanismos podem contribuir para a evolução, e nenhum marcador deve ser interpretado isoladamente.
O estudo reforça a importância de combinar informações clínicas, funcionais, radiológicas e biológicas.
⚡ E o que acontece dentro dos neurônios?
Outro estudo publicado no mesmo período investigou algo ainda mais básico: como os neurônios produzem e administram energia.
Os pesquisadores utilizaram células reprogramadas de pessoas com esclerose múltipla e de indivíduos saudáveis para gerar modelos neuronais em laboratório.
Nos neurônios derivados de pessoas com esclerose múltipla, foram encontradas alterações em:
respiração mitocondrial;
capacidade energética;
glicólise;
morfologia das mitocôndrias;
contatos entre mitocôndrias e retículo endoplasmático.
Essas diferenças sugerem que o metabolismo celular pode participar da vulnerabilidade neuronal observada na doença.
🔋 Por que as mitocôndrias são importantes?
As mitocôndrias funcionam como importantes centros de produção de energia das células.
Neurônios exigem grande quantidade de energia para manter:
transmissão de sinais;
equilíbrio de íons;
manutenção das membranas;
funcionamento das conexões neurais.
Na esclerose múltipla, especialmente em regiões desmielinizadas, a demanda energética pode aumentar.
Quando a produção ou utilização de energia se torna menos eficiente, o neurônio pode ficar mais vulnerável.
🧬 Mitocôndrias e retículo endoplasmático trabalham juntos
As mitocôndrias mantêm áreas de contato com outra estrutura celular chamada retículo endoplasmático.
Esses pontos de contato ajudam a regular:
cálcio;
produção de energia;
metabolismo de lipídios;
resposta ao estresse celular.
No estudo, os neurônios derivados de pacientes com esclerose múltipla apresentaram uma quantidade aumentada desses contatos e alterações na morfologia mitocondrial.
Os pesquisadores interpretam esses achados como possíveis sinais de um metabolismo celular diferente nos neurônios associados à doença.
🔎 Os dois estudos contam partes diferentes da mesma história
Um estudo observa o paciente ao longo do tempo.
O outro observa o funcionamento das células em laboratório.
Eles não demonstram diretamente que as alterações mitocondriais sejam responsáveis pela PIRA.
Mas, quando analisados em conjunto, ajudam a ilustrar como a progressão da esclerose múltipla pode envolver muito mais do que surtos inflamatórios visíveis.
Existe crescente interesse científico em processos como:
neuroinflamação persistente;
dano axonal;
atividade glial;
metabolismo energético;
disfunção mitocondrial;
mecanismos de neurodegeneração.
⚠️ O que esses estudos ainda não permitem afirmar?
Ainda não é possível utilizar esses resultados para:
prever individualmente a progressão de um paciente;
definir tratamento apenas com base nesses marcadores;
afirmar que alterações mitocondriais causem diretamente a progressão clínica;
substituir acompanhamento clínico e ressonância magnética.
Os resultados são importantes para compreender a biologia da doença, mas precisam ser confirmados e ampliados em outros estudos.
🧠 Esclerose múltipla exige acompanhamento ao longo do tempo
Mesmo quando não existem surtos recentes, é importante observar:
mudanças na mobilidade;
fadiga persistente;
cognição;
visão;
equilíbrio;
força;
coordenação;
autonomia nas atividades diárias.
Pequenas mudanças acumuladas ao longo do tempo podem fornecer informações importantes sobre a evolução da doença.
🧠 Clínica de Neurologia e Distúrbios do Sono de Maringá
A esclerose múltipla é uma doença complexa e pode envolver processos inflamatórios, metabólicos e neurodegenerativos que não são percebidos apenas pela presença ou ausência de surtos.
O acompanhamento neurológico contínuo permite avaliar sintomas, funcionalidade, exames e evolução clínica de maneira integrada.
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📚 Referências
- BÖSE, Celina; REHM, Alexander; WU, Z.; KARL, A.-S.; AUGUSTYNIAK, S.; RENK, P.; SALMEN, A.; GOLD, R.; WINKLHOFER, K. F.; GISEVIUS, B.; BADER, V.; MOTTE, Jeremias. Altered metabolism and endoplasmic reticulum-mitochondria contacts in multiple sclerosis neurons. Frontiers in Neurology, v. 17, 1915238, 2026. DOI: 10.3389/fneur.2026.1915238 . Publicado em: 13 out. 2026.
- SOLÍS-TARAZONA, Luis Rafael; REDDAM, Salma; MERCHÁN-CABANILLAS, Ana; NAVARRO-QUEVEDO, Silvia; RAKET, Lars Lau; GIL-PEROTIN, Sara. A 2-year multimodal prospective cohort study to predict sustained progression independent of relapse activity in multiple sclerosis. Frontiers in Neurology, v. 17, 1902455, 2026. DOI: 10.3389/fneur.2026.1902455 . Publicado em: 13 out. 2026.



